sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago


Neste post decidi falar-vos de um dos melhores livros que li este ano: o Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago.

O prestigiado escritor português, nascido a 1922 e falecido em 2010, foi galardoado com diversos prémios, dos quais destaco o Prémio Camões, em 1995 e o já conhecido Prémio Nobel da Literatura, em 1998, tendo sido este livro, publicado a 1995 e que em seguida apresento, um grande impulsionador da atribuição deste último galardão.

A presente obra narra uma inexplicável epidemia de cegueira branca que, progressivamente, se prolifera pela cidade. Quando a quantidade de pessoas afetadas atinge proporções consideráveis, o Governo é obrigado a adotar medidas de isolamento numa tentativa (que se adivinhará falhada) de deter a cegueira. É num antigo manicómio - o principal cenário da obra - que se decide albergar o primeiro grupo de cegos e, posteriormente, os restantes.

É neste cenário que, pela voz da única personagem que, misteriosamente, não cegara, Saramago relata a luta constante pela sobrevivência e o contacto frontal do ser humano com os seus instintos animalescos - desencadeados pela escassez de condições que se agrava à medida que a cegueira toma maiores proporções, por obrigar a que uma quantidade absurda de pessoas seja asilada num tão pequeno espaço. É, portanto, nas mais simples situações do quotidiano (como, por exemplo, no que concerne à divisão de comida) que assistimos à incessante busca pelo poder; à necessidade de subjugar o outro ao seu próprio interesse; ao egoísmo pessoal que se apodera de cada uma das personagens.

À medida que a ação evolui, cresce no leitor uma inquietação que o escritor não faz por reverter: a descrição do horror e do caos vão sendo crescentes e conduzem-nos à perceção quase assustadora - mas elucidativa - do terror a que um ser humano pode ser capaz de submeter um seu semelhante em prol da satisfação das suas necessidades. Aliás, a propósito desse aspeto, Saramago chegou a referir, na apresentação do livro, que este "é um livro brutal e violento (...) com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo", assumindo-o mesmo como "uma das experiências mais dolorosas" da sua vida.

A evolução na leitura do livro conduz-nos, de modo quase inconsciente, à constatação dilacerante da similaridade entre a alegoria descrita e a realidade por todos nós vivida. Deste modo, somos levados a tomar consciência do sentido metafórico de que a dita cegueira se reveste e que é, a certo ponto, constatado por uma das personagens que, a propósito, chega a afirmar:

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo não vêem.”

Esta afirmação confirma a metáfora de uma cegueira que não é física, mas de alma - uma cegueira mental, cujo significado nos alerta para a inutilidade da capacidade de olhar quando a mente é cega, numa realidade que remete para a frase da contracapa, na qual se pode ler:

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”


À descrição de um cenário que, por si só, reúne os elementos necessários e suficientes para espoletar as mais aflitivas emoções, soma-se o contributo dado à narrativa pela característica escrita corrente de Saramago. Por via de um discurso que se pauta pela ausência de pontuação discursiva e pela primazia dada ao ponto e à vírgula, Saramago transporta-nos, como ninguém, para os diálogos entre as personagens como se deles fizéssemos parte, o que contribui, a meu ver, para que a ação ganhe uma dimensão de tal modo real que nos conduz para dentro dela, fazendo exaltar os mais vívidos sentimentos e emoções.

Do meu ponto de vista, o Ensaio sobre a Cegueira, enquanto alegoria, configura uma crítica social que, apoiada na constatação do crescente egoísmo pessoal e da cada vez maior ausência de empatia, enfatiza a recusa do ser humano em atentar na realidade que o rodeia, interessando-se somente pelo que for suscetível de servir os seus interesses.


É uma obra que lida com o lado obscuro da natureza humana mas que, apesar disso, não aniquila a esperança de um futuro melhor. Apesar de aflitivo e violento, o livro é fascinante pela forma magnífica como Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e recuperar a lucidez. Por este motivo, considero-o um excelente livro e recomendo a sua leitura a toda a gente.